sábado, 17 de dezembro de 2016

O radioamadorismo em minha vida, muitos contatos no mundo inteiro!

O que é radioamadorismo

Hoje em dia pouca gente sabe o que é um Radioamador! E o que é radioamadorismo. Conforme está nos dicionários, o radioamadorismo basicamente é um serviço de radiocomunicações, destinado ao treinamento próprio, à intercomunicação e a investigações técnicas, levadas a efeito por amadores devidamente autorizados, interessados na radiotécnica a título pessoal como hobby que não visam qualquer objetivo pecuniário ou comercial ligado à exploração do serviço, inclusive utilizando estações espaciais situadas em satélites da Terra. Radioamador, portanto, é chamada a pessoa que utiliza transceptores de rádio comunicação destinados a este fim. Na atualidade os radioamadores utilizam até satélites que destinam frequências para esta finalidade específica.

As estações de radioamador

Existem estações de radioamador desde as mais simples, passando por intermediárias até chegar àqueles sofisticadas ao extremo, com equipamento de última geração, com utilização de poderosas antenas, transceptores e satélites. Mas todas partem de uma vontade e de um interesse igual – fazer amizade e servir ao próximo, além de conhecer outras culturas e se aventurar por contatos diversos em múltiplos países do mundo.

As minhas estações de radioamador foram bastante simples. Na foto ao lado minha filha, ainda muito nova, ouvindo os sons de uma transmissão e achando tudo muito engraçado. Começaram com alguns equipamentos transceptores e antenas caseiras. Depois melhoraram um pouco com transceptores melhores e mais potentes, com antenas que possuíam rotores para direcioná-las automaticamente. Os trabalhos de montagem de antenas, de torres, geralmente eram compartilhados e os amigos se ajudavam mutuamente nas tarefas. O espírito de solidariedade sempre foi mantido até hoje.   

O Código “Q”

Neste texto empregarei algumas combinações pertencentes ao Código “Q”. Você certamente ouviu falar QAP ou QSL, certo? O Código “Q” é uma  linguagem é utilizada como padrão na comunicação via rádio, inclusive pelas forças de segurança pública e defesa social, e a sua utilização da forma correta facilita o entendimento das mensagens, diminuindo o tempo de transmissão de dados. A linguagem do Q, assim também conhecida, é bastante importante para diminuir os erros muito comuns de transmissão da informação pela linguagem falada e os seus equívocos no entendimento.

Iniciando como “PX”, na Faixa do Cidadão

Muito bem, em minha juventude, época em que despertei meu interesse de forma mais forte pela eletrônica (trabalhava como músico, como sonoplasta na TV Educativa do Ceará (TVE) e essas atividades se interligavam de muitas formas. Equipamentos diversos, amplificadores, mesas de áudio, mesas de vídeo, máquinas de videotape, câmeras de televisão, transmissões via rádio, telegrafia... Tudo isso me fascinava.

Dito isso, um dia à tarde (lembro perfeitamente) eu estava de saída do expediente na TVE quando encontrei alguns bons amigos do trabalho (cuja amizade perdura até hoje), José Roberto e Paulo César, que estavam falando de um carro para outro lugar. Cheguei perto deles muito curioso e admirado, ao tempo que observava, perguntei algo assim: “como vocês estão falando?” E logo recebi a rápida explicação do Zé Roberto nos deu. (Ele, que se tornaria mais à frente um dos engenheiros eletrônicos mais capacitados do Ceará, com o seu irmão Paulo César, que nós chamávamos simplesmente de Paulinho). Disse o Zé Roberto que estavam falando com um equipamento de transmissão que operava na Faixa do Cidadão, ou “PX” como se falava também. Esse equipamento se não me engano tinha apenas 6 canais, pois era um dos primeiros que cheguei a ver. O “contágio” foi impressionante. Quis logo saber como poderia participar, adquirir um “PX” e entrar para o radioamadorismo. E assim foi o meu ingresso como operador da Faixa do Cidadão (PX7-10.245, que era o meu prefixo, como QRA – nome do operador: Silva Neto. Na foto acima os meus tios Raimundo e João, em São José dos Campos, São Paulo, na estação de radioamador deles. 

Entrosado como éramos em tudo o que se referia à eletrônica logo aprendi muito com eles e com outros amigos, como o Brito – de prefixo PT7-BLZ – que ele dizia “Brasil Zona Leste” - (in memoriam), que era eletricista da TVE. E depois disso muitos amigos, como o Daniel Menezes, PT7-CLN, o Delano Gondim, PT7-BZK e tantos outros. Aprendi tanto na parte técnica e eletrônica, quando montávamos acessórios, como através de seus exemplos de companheirismo e amizade, pelo que agradeço sempre. E espero ter retribuído isso de alguma forma ao longo dos anos em que me dediquei muito a esta atividade.

O aperfeiçoamento e a evolução para Radioamador Classe “A”

Instalei equipamentos de transmissão em meu corcel e também montei uma pequena estação de radioamador em casa. E de qualquer local que eu trafegava poderia facilmente manter contato com minha residência, com outros radioamadores ou até mesmo entrar em contato com a Rede de Emergência da Polícia, para avisar sobre alguma ocorrência ou eventualmente até pedir apoio, se necessário. Na foto ao lado uma de minhas primeiras estações, com amigos radioamadores. Na parede os cartões de QSL de várias localidades. 

Os equipamentos

E os transceptores foram se sucedendo, o aprendizado também. E aí vieram as antenas, a construção dos melhores modelos, o conhecimento das famosas ondas estacionárias, os amplificadores de potência, os amplificadores de áudio para os microfones e uma parafernália de eletrônicos que utilizamos todos. As experiências eram trocadas no dia a dia. Logo os conhecimentos eram compartilhados. A ajuda entre todos era constante. E nossa amizade também.

O Código Morse

O Código Morse, inventado pela pessoa do mesmo nome, é um sistema de representação de letras, números e sinais através de sons curtos e longos, que poderiam ser enviados eletronicamente de um ponto a outro ou através de sinais de rádio. Esse sistema é composto por todas as letras do alfabeto e todos os números. Os caracteres são representados por uma combinação específica de pontos e traços, sendo que para formar as palavras o operador tem que realizar a combinação correta de símbolos.
Em razão de meu interesse, aprendi rapidamente e logo me interessei pelo Radioamadorismo mais técnico, que necessitava de licenças do antigo Departamento Nacional de Telecomunicações (DENTEL), para operação nas classes “B” e “A”, a mais completa. Comecei a aprender o código “Morse” para transmissões telegráficas (que era exigido nos exames do Dentel). Nos intervalos do expediente na TV, em minha sala de sonoplastia, eu tinha um manipulador de código Morse, um pequeno aparelho que usávamos para o exercício de transmissões. Um dos técnicos da TVE, que não lembro o nome, tinha sido telegrafista de Rede Ferroviária do Ceará e me passava muitas dicas. Enquanto ele fazia seu serviço ficava ouvindo o que eu transmitia (textos de livros, apenas para treinar). O cara sabia tanto e tinha um ouvido espetacular que, mesmo de costas para mim dizia: “repete o “r” porque não está bem escrito... Ou: “alonga mais o final do “N”... Coisas assim.

Os exames no Dentel

Prestei sucessivos exames, primeiramente para a Classe “B” (feito em Teresina, no Piauí) e depois para a Classe “A”, realizado em Juazeiro do Norte, Ceará. Com a aprovação poderia utilizar todas as freqüências de rádio para a classe. Sendo bem sucedido recebi o prefixo PT7-JSN (que alguns chamavam no rádio baseados nas iniciais, de “Jovem Silva Neto” ou Jesus Salvador Nosso (JSN).

A assim foram muitos e bons anos. Atuando na Faixa do Cidadão os radioamadores ajudavam a Rede de Emergência da Polícia Militar (PX7-REC) pelo fato de os “PX” informarem ocorrências de vários pontos da cidade para a Rede de Emergência (equivalente hoje aos Whatsapp e similares).

Os contatos à longa distância (“DX”)

Em estações residenciais mantínhamos contatos com o país inteiro e também com o mundo todo. Era questão apenas de mudar a frequência de alcance e o posicionamento da antena, quase sempre direcional. E eu consegui manter milhares de contatos Brasil afora e pelo mundo todo! Em minha estação eu exibia os cartões postais recebidos, além dos “QSL” que eram cartões de confirmação de contato que em cada um “QSO” (comunicação, conversa) inicial o radioamador tinha por ética enviar depois de cada contato mantido. Foram 171 países com os quais mantive contatos, com centenas de cidades pelo mundo afora. E todos esses contatos confirmados através do recebimento de cartões de “QSL” (confirmações) os quais guardo até hoje. No Brasil nem se fala porque centenas de contatos eram mantidos com os diversos estados. Eu tive que organizar um fichário para registrar todos os contatos, em ordem alfabética, para não esquecer datas, nomes e outros detalhes dos amigos e amigas quando de futuras conversações.  Em um dos períodos mantive uma torre de 25 metros, triangular, que suportava antenas para várias frequências de rádio.
  

O Call Book

O Call Book era essencial para a conferência de dados dos radioamadores do mundo inteiro. Pois o cadastro (como uma agenda telefônica) estava lá, de todos os países. Assim podíamos tirar alguma dúvida no momento de enviar o QSL (que era o cartão de confirmação de contato) para os amigos. Se durante a transmissão a propagação pelo rádio ficava mais difícil ou com chiados nós por vezes não entendíamos algum número, ou o detalhe que fosse. Apenas para fins de simples registro para os leigos, Propagação é o que os radioamadores usam para determinar quando existem meios ideais para uma boa comunicação, tendo em vista que as ondas de rádio sofrem interferência do sol que varia muito de épocas do ano, localidades etc. Então quando os radioamadores falam que a “propagação” não está boa, significa dizer que há muitas interferências (QRM) nos contatos.

O radioamadorismo na família inteira

A vontade e o interesse de ter uma comunicação mais fácil se espalhou pela família. Meu tio Raimundo Ribeiro da Silva e meu pai Alberto Ribeiro da Silva também estudaram e prestaram exames no Dentel, conseguindo suas licenças para operar como radioamadores. Eu conversava como Tio Raimundo e com o papai sempre. Eles gostavam muito das “rodadas” dos radioamadores, que eram encontros em horários determinados para que grupos conversassem. Mais ou menos com as redes sociais de hoje, com a diferença de que os contatos eram mais reais, porque as pessoas conversavam entre si e as emoções podiam ser percebidas pelo tom de voz, essas coisas. O tio Antonio Ribeiro (in memoriam) também foi radioamador. E usava o rádio, além de tudo, para conversar com o filho dele que era militar e serviu muitos anos em áreas de fronteira onde as comunicações não eram muito boas nos idos tempos... 

Cheguei também a me corresponder por um período com um radioamador inglês que morava a 30 quilômetros de Londres. Martin Brooks era seu nome. Conhecíamos a família dele, pelo rádio, as filhas dele cantavam e tocavam flauta. E um italiano, que conhecia muito meu filho Alberto Neto, ainda pequeno, se dizia “avô internacional” dele. 

Utilidade pública do radioamadorismo

Vale destacar que o serviço de radioamadorismo não se presta apenas para diversão. É também de extrema utilidade pública. Houve épocas e ainda hoje existem locais que não recebem redes de comunicação e dependem exclusivamente de radioamadores para se comunicar. Por outro lado a solidariedade via radioamadorismo é incrível! Muitas vezes um radioamador recebe um pedido de um medicamento que está em falta ou nem mesmo existem em determinado local. Através de seus contatos consegue os medicamentos e os envia, por meio próprio ou por intermédio de terceiros, todos fazendo parte de uma grande rede assistencial voltada para o benefício da comunidade. Quantas oportunidades os radioamadores enviaram pedidos de socorro dando conta de acidentes em localidades de difícil acesso e sem comunicação! Em algumas vezes cheguei a participar de ações desta natureza.

Guardo com saudade ainda alguns equipamentos de radioamador e quem sabe possa montar novamente uma estação de rádio e reativar os contatos e as amizades. Fica neste texto o registro de uma eterna gratidão aos amigos da Faixa Cidadão e aos amigos Radioamadores, pelo convívio, pelas experiências trocadas e por uma fase muito interessante e que marcou minha vida, particularmente por forçar o aprendizado e o treino constante do idioma inglês para os contatos internacionais.

Na oportunidade envio a todos um forte 73/51 extensivos a todo o “QTH” familiar, QSL?   

Dedico estas palavras a meus amigos radioamadores que incentivaram o meu desenvolvimento neste campo. Desejando que muita paz e saúde os atinjam sempre em seus lares, onde quer que estejam neste momento.

SILVA NETO – PT7-JSN

QRA: Silva Neto – prefixo indicativo: PT7-JSN

Um comentário:

  1. Perfeito meu amigo, viajei no teu texto, muito seguro e cheio de vibrações. Passei também por tudo que citastes. É a frase que eu te disse: O radioamador não serve para aparecer, mas aparece para servir. Parabéns, adorei.

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